A
mais inglesa das ferrovias brasileiras teve
a sua pujança econômica garantida
pelo monopólio (de fato) de acesso ao
Porto de Santos a partir do planalto, garantindo-lhe
uma participação decisiva na economia
do estado de São Paulo.
A
ligação ferroviária entre
o planalto paulista e o litoral foi talvez a
maior idealização de Irineu Evangelista
de Souza, a quem foi dada a concessão
para construir uma linha entre Santos e Rio
Claro, 250 km para o interior, com garantia
de juros de 7%, sendo 5% pelo seu Governo Imperial
e 2% pelo governo da Província de São
Paulo.
A
concessão dava também o privilégio
de zona, não permitindo que outras ferrovias
fossem construídas num raio de trinta
quilômetros para cada lado da via. As
obras foram iniciadas em 1860, escolhendo-se
a mesma bitola de 1,60 m da Estrada de Ferro
Dom Pedro II.
O
sonho de Mauá acabou tronando-se um pesadelo
a firma inglesa que empreitava as obras, a Robert
Sharp & Sons, faliu de forma suspeita, enterrando
todo investimento que ele havia feito pessoalmente
e causando-lhe um baque do qual nunca mais iria
se recuperar. O triste episódio é
contado em detalhes na recente biografia “
Mauá: Empresário do Império”,
de Jorge Caldeira (ed. Companhia de Letras,
1995).
A
São Paulo Railway, controlada pela casa
Rothschild e outros poderosos investidores ingleses
foi autorizada a funcionar no Brasil em junho
de 1868, um ano depois da inauguração
de sua linha entre Santos e Jundiaí.
Numa renúncia da qual em breve se arrependeria,
a SPR declinou de estender suas linhas entre
Jundiaí, Campinas e Rio Claro, preferindo
controlar apenas o lucrativo acesso ao Porto
de Santos.
Da
ausência nasceria posteriormente a Companhia
Paulista de Estradas de Ferro, destinada a formar
junto com a SPR o par de ferrovias mais lucrativas
do Brasil na primeira metade do século
XX.
O
trecho da Serra do Mar, entre Paranapiacaba
e Raiz da Serra, era um prodígio de engenharia
na época e causa de admiração
até hoje. Utilizava um sistema funicular
de planos inclinados onde trens eram puxados
por cabos de aço tracionados por máquinas
de vapor fixas. Os cabos de aço eram
presos a um carro-breque especial denominado
"serra-breque" dotado de freios tipo
tenazes que mordiam os trilhos em caso de emergência.
O
sistema no entanto não podia ter sua
capacidade expandida além do máximo
de 1.252.000 toneladas/ano em cada sentido.
Alguns eminentes jonais de São Paulo
comentariam mais tarde que os planos inclinados
da Serra haviam sido construídos de fato
para burlar as cláusulas de tráfego
mútuo que a SPR, ao menos teoricamente,
seria obrigada a obedecer, já que na
prática nenhum trem de outra companhia
poderia chegar a Santos sem sua intervenção.
Locomotivas convencionais não podiam
trafegar sem os loco-breques nos planos inclinados.
Com
o passar dos anos a capacidade da linha ficou
de fato esgotada. Diante da pressão crescente
da demanda,a SPR empreendeu a duplicação
de toda a sua linha tronco, na serra e no planalto,
e construiu um novo sistema funicular de maior
capacidade. As obras foram feitas em ritmo acelerado
em todas as suas frentes, tendo sido concluídas
por volta de 1900.
O
novo sistema funicular da serra, a partir de
então conhecido como "Serra Nova",
era uma maravilha tecnológica. Os trens
trafegavam por cinco planos inclinados entre
Paranapiacaba e Piassaguera, rebocados por locomotivas
a vapor especiais chamadas loco-breques. Duas
loco-breques trafegavam ao mesmo tempo em cada
plano inclinado, respectivamente subindo e descendo,
presos por tenazes a um cabo sem fim tracionado
por uma máquina a vapor fixa. |