Mas
se o governo podia comprar as linhas para se
livrar das garantias não iria por isso
administrá-las, e o presidente Campos
Sales, e os seus sucessores Rodrigues Alves,
Afonso Pena e Nilo Peçanha logo começaram
a devolver as ferrovias públicas à
iniciativa privada através de uma política
de arrendamento. Campos Sales, citado por Steven
Topik em “A presença do Estado
na economia política do Brasil de 1889
a 1930” (Editora Record, 1987) declarava:
“Longa experiência mostrou que não
há vantagem em manter ferrovias sob administração
pública (...) Entregá-las à
iniciativa privada e estimular a atuação
dos interesses privados não só
alivia do Tesouro Nacional (...) como amplia
a esfera de prosperidade e de utilidade tanto
para o comércio como para a indústria”.
O raciocínio levou a uma nova fase da
história com a constituição
de enormes companhias ferroviárias estrangeiras.
Enormes
mesmo. A inglesa Great Western of Brazil Railway
Company cresceu de uma pequena linha de 83 km
construída em 1882 (EF Recife ao Limoeiro)
para uma rede de 1.438 km formada em boa parte
com o arrendamento, em 1901, de seis ferrovias
recém encampadas (dizia-se “resgatadas”):
EF Natal e Nova Cruz, Conde d’Eu, Recife
ao São Francisco, Central das Alagoas,
Sul de Pernambuco e Paulo Affonso. O valor do
arrendamento das seis últimas foi pago
pela desistência dos juros da primeira.
Mais tarde acrescentou-se à malha da
Great Western a EF Central de Pernambuco.
A
Compagnie Auxiliaire des Chemins de Fer au Brésil
pertencia a bancos e investidores belgas. Começou
em 1898, arrendando 758 km da EF Porto Alegre
a Uruguaiana e chegou a operar toda malha de
2.000 km da Viação Férrea
Rio Grande do Sul, constituída pelas
EF Porto Alegre e Uruguaiana, Rio Grande a Bage,
Santa Maria a Passo Fundo, Porto Alegre a Novo
Hamburgo e Novo Hamburgo a Taquara. Vale a pena
olhar o quadro de subscritores no lançamento
da empresa para constatar a sua diversificação.
A Auxiliaire durou até 1910, quando foi
adquirida pela Brazil Railway Company, de Percival
Farquhart, como ficaria conhecido, chegou ao
Brasil em 1906 e, armada de capitais dos EUA
e Canadá, simplesmente arrendou 40% da
malha brasileira, além de muitas outras
concessões de serviços públicos.
Quebrou fragorosamente nos primeiros anos da
I Guerra Mundial, perseguido pela imprensa nacionalista,
que o acusava de representante dos trustes internacionais.
Finalmente,
entre as muito grandes, havia também
The Leopoldina Railway, que chegou em 1912 a
ter 2.400 km através de arrendamentos
e aquisições. Veja a seguir a
trajetória das principais ferrovias no
início deste século. |