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Corporativismo e poder

 
 
Antiga sede da Estrada de Ferro Central do Brasil, no Rio de Janeiro
   

Uma exceção na política de arrendamentos de ferrovias públicas na República Velha foi a antiga EF D. Pedro II, já então EF Central do Brasil. Antecipando de quase 100 anos o que aconteceria nos tempos atuais com outras empresas estatais, a central foi um núcleo de resistência ao liberalismo de então, lutando de todos os modos para preservar seu status de empresa pública, no caso a mais importante empresa pública do país. Houve várias tentativas de arrendar a Central. A primeira foi de Deodoro da Fonseca, o primeiro presidente republicano, o que foi fator decisivo para a destituição (Jornal do Commercio, Retrospecto Comercial, 1891). Em 1896 houve nova tentativa, e em 1924 o presidente Arthur Bernardes supostamente concordou em permitir que investidores britânicos adquirissem a companhia.

Todas essas tentativas fracassaram. Em 1897 os Rotschild estiveram tão interessados que o presidente Prudente de Morais, passando para o lado dos conservadores, queixou-se - citado por Steven Topik - que "eles nos querem tomá-la na marra". Em 1924 foi a vez da São Paulo Railway tentar comprar a Central, mais uma vez inutilmente. Para se ter uma idéia da relevância da questão, quando em 1891 Deodoro ofereceu a Central para arrendamento o Congresso protestou e foi fechado pelo presidente. Em represália os ferroviários entraram em greve, isolando Deodoro no interior do Rio e levando à sua destituição. Dois anos mais tarde eles fariam o mesmo com Floriano, que no entanto resistiu.

 
 

Os ferroviários da EFCB nunca mais conseguiram tomar uma parte tão ativa no processo político, mas sempre representariam uma ameaça aos liberais. Antes de tudo porque nos anos da república velha a central transportava metade dos passageiros e um quarto das cargas do país. E depois pelo simples número de empregados. Já em 1894 a Central empregava mais de 14 mil pessoas, dois terços do exército nacional. Em 1930 seriam mais de 26 mil. E em 1957, na criação da Rede Ferroviária Federal, 51 mil! E todos queriam continuar funcionários federais. Já havia então privilégios, como descanso semanal remunerado, férias e aposentadoria, vantagens que pouquíssimas empresas privadas podiam oferecer. Além naturalmente de garantia de emprego. Esta poderosa corporação, advertia em 1928 o ministro da Agricultura, Pandiá Calógeras, poderia caso a Central fosse arrendada a investidores privados, decretar a greve geral e levar ao risco da revolução. A capital federal, politizada e populosa, ficaria isolada das suas fontes de alimentos e transporte suburbano ficaria totalmente desorganizado.

Mais uma vez como aconteceria muitas décadas mais tarde, o setor privado diretamente envolvido com a ferrovia, ou seja, seus principais clientes ( ainda não havia indústria ferroviária no Brasil) também defendia a administração federal para a central do Brasil. Produtores rurais, comerciantes industriais e mineradores do Rio, São Paulo e Minas Gerais, queriam a manutenção das tarifas subsidiadas que a ferrovia já praticava naquela época.