Como o objetivo
inicial da CP era ligar Jundiaí a Campinas,
a designação original da ferrovia era
Companhia Paulista da Estrada de Ferro de Jundiahy
e Campinas. As obras foram iniciadas em 1870, adotando-se
sabiamente a mesma bitola de 1.60 m utilizada pela
São Paulo Railway. A linha, com cerca de 45
km, foi inaugurada em 11 de agosto de 1872, gozando
das mesmas garantias de juros e privilégios
de zona estabelecidos na concessão de SRP.
Já no segundo trecho, no entanto, até
Rio Claro, a oferta da Paulista abria mão das
garantias de juros trocando-a por maior liberdade
tarifária, “princípio este de
mais justa eqüidade – segundo um comentarista
de época – por fazer pesar exclusivamente
sobre os que deviam gozar as vantagens da estrada
os ônus porventura decorrentes da empresa”.
A
ousada visão empresarial da CP manifestava-se
desde a época de sua construção,
e passou a ser uma das suas características
mais marcantes de toda a sua história como
empresa privada independente. O traçado de
suas linhas mantinha raio de curva mínimo de
300 m e rampa máxima de 2%, o que pode parecer
muito para os trens pesados de hoje, mas era estado
da arte na virada do século. Havia também
visão logística. Quando os trilhos chegaram
às margens do Mogi-Guaçu a CP organizou
um extenso sistema de navegação fluvial,
dando uma demonstração pioneira (depois
de Mauá) de integração de transporte
intermodal.
Todo
o empreendimento na construção da Paulista
foi feito sem um único empréstimo estrangeiro,
sendo financiado apenas pela emissão de ações
da própria companhia. Seus incorporadores eram
todos abridores e proprietários de terras no
oeste paulista, tinham ali os seus interesses e tudo
fazia parte do processo da estrada de ferro. Foi o
casamento perfeito entre os usuários e a estrada
de ferro, e ninguém na época se lembrou
de falar em centro de custo.
“A
quem, senão os agricultores, capitalistas e
negociantes da província, cabe a iniciativa
disso? (o prolongamento da ferrovia) perguntava-se
Saldanha Marinho em 1868 (Odilon de Nogueira Matos,
op. Cit.). E procederá contra essa idéia
o capcioso argumento de se achar a lavoura onerada
de grande dívida? Basta refletir com calma,
desprezando razoavelmente, quer os sofismas do credor,
cuja fortuna pode aumentar com a continuação
do atual estado de coisas, que os temores do devedor,
que se desviará ao peso de seus presentes empenhos,
para bem compreender que esse argumento produz em
contrário. Se a lavoura está orneada
só poderá salvar-se procurando aumentar
o valor líquido de seus produtos e isto só
o conseguirá obtendo mais fácil e mais
barato transporte dos mesmos produtos para o mercado.
E se para consegui-lo, um sacrifício mais é
indispensável, deixar de faze-lo é menosprezar
os próprios e mais variados interesses.
Fase
de expansão
A
Companhia Paulista foi desde o início uma empresa
bastante lucrativa, continuando a expandir suas linhas
por Mogi-Guaçu, Porto Ferreira, Araraquara,
Bebedouro, Barretos, Piracicaba, Jaú, e Baurú,
quer fosse construindo suas próprias linhas,
quer através da compra de pequenas ferrovias
já estabelecidas na região. Inclusive
a The Rio Claro São Paulo Railway Company,
incorporada em Londres, adquirida em 1892, tornando-se
um raro exemplo de ferrovia privada nacional.
A
eficiência da CP não tardou no entanto
a atrair o investimento estrangeiro, e 38% de suas
ações foram adquiridas por Percival
Farquhar em 1908. A Paulista, então sob a sólida
administração do lendário Conselheiro
Antonio Prado, foi considerada por Farquhar como a
ferrovia brasileira mais bem administrada.
Ao
final da Primeira Guerra Mundial, a Paulista como
as demais ferrovias brasileiras sofria seriamente
os efeitos da retração econômica.
Foi nesta época, que o engenheiro Francisco
de Monlevade - outra lendária figura da história
da Paulista - fez um dos investimentos mais ousados
e bem sucedidos de toda a história das ferrovias
brasileiras, contratando a eletrificação
da linha tronco entre Jundiaí e Campinas. Esta
eletrificação, inaugurada em 23 de julho
de 1922, e que foi posteriormente expandida em mais
286 km até Rincão em dezembro de 1928,
garatiu a manutenção da eficiência
e economia que tornaram a CP o padrão de referência
dentre as ferrovias no Brasil e a última delas
a resistir ao avanço do estado.