A
primeira das grandes redes ferroviárias
privadas a entrar em dificuldades foi a Compagnie
des Chemins de Fer Fédéraux de
L'Est Brésilien, em 1931, com mais de
2200 Km de linhas pelos estados da Bahia, Sergipe
e Pernambuco. Como outras grandes redes estrangeiras
do início do século, a empresa
resultou da encampação e concessão
de várias linhas, em 1910, no governo
Hermes da Fonseca. Os concessionários
eram investidores e bancos franceses e belgas,
que se desinteressaram pelo negócio e
aceitaram a intervenção federal
em 1931. Esta prorrogou-se até 1935,
quando o governo decretou, pela segunda vez
a encampação definitiva da Estrada,
que a partir de então passou a chamar-se
Viação Férrea Federal Leste
Brasileiro.
O
governo Getúlio Vargas preocupou-se também
com resolver definitivamente a liquidação
da falida Brazil Railway Company, decretando
finalmente a incorporação de todos
bens companhia ao patrimônio da União,
em julho de 1940, após os processos se
avolumarem pelos tribunais por mais de 20 anos.
A
companhia Mogiana entretanto, misturada ao patrimônio
da BR, recorreu da decisão do Governo,
alegando que a Brasil Railway há muito
tempo não mantinha com ela nenhum tipo
de acordo acionário. O Governo reconheceu
o recurso da Mogiana mesmo já em plena
ditadura do Estado Novo, deixando-a como a única
ferrovia privada antes controlada pela Brasil
Railway.
Uma
ferrovia que recebeu ajuda oficial durante o
primeiro governo de Getulio Vargas foi a Great
Western of Brazil Railway Company, a segunda
grande rede ferroviária nordestina, com
mais de 1.600 km de linhas em Pernambuco, Paraíba,
Rio Grande do Norte e Alagoas. Foi beneficiada
com vários empréstimos para melhoramentos
concedidos pela União às vésperas
da Segunda Guerra Mundial, em parte por conta
do acordo secreto entre Brasil e os Estados
Unidos para estabelecimento de bases americanas
na região.
Dentre
as principais ferrovias privadas do Brasil,
a SPR e a Companhia Paulista foram as que menos
sofreram os efeitos da crise, podendo tirar
proveito da acelerada recuperação
econômica nas exportações
de café a partir de meados da década
de 30. A SPR fez um dos investimentos mais notáveis
da época, introduzindo no Brasil o trem-unidade
diesel-elétrico “Cometa”,
em 1935, para modernizar o serviço de
passageiros entre São Paulo e Santos.
O “Cometa” tornou-se logo um grande
sucesso junto ao público, motivando posteriormente
a compra de mais duas unidades semelhantes,
batizadas de “Estrela” e “Planeta”.
A
SPR também começou a preparar
os estudos para eletrificação
de sua linha tronco entre Jundiaí e Paranapiacaba,
face ao crescente tráfego de subúrbio
em torno da cidade de São Paulo. Um novo
sistema de sinalização por uma
única cabine elétrica na Estação
da Luz estava incluido no projeto, que entretanto
teve que ser adiado por conta da Segunda Guerra
Mundial. Todos esses projetos foram imediatamente
retomados em 1945.
Com
início do Governo do General Eurico Gaspar
Dutra, em 1946, a política econômica
passou a ter uma orientação mais
liberal. Dutra, entretanto, reservou os setores
de saúde, alimentação,
transporte e energia – o Plano S.A.L.T.E.
– como aqueles que continuariam a ser
desenvolvidos preferencialmente pelo Estado,
criando com isso as condições
para encampação das ferrovias
que ainda estavam nas mãos de empresas
privadas, sobretudo aquelas ainda de capital
estrangeiro.
A
SPR foi a nacionalização mais
notória deste período, encampada
pelo Governo Dutra em 13 de setembro de 1946,
por conta da disponibilidade de créditos
junto a Inglaterra acumulados durante a guerra.
A ferrovia que por quase oitenta anos fora a
“inglesa” de São Paulo, agora
passava a ser Estrada de Ferro Santos a Jundiaí.
O Governo Dutra nacionalizou ainda mais duas
redes importantes durante o último ano
de seu mandato em 1950. Em julho a Great Western
of Brazil Railway Company, outra inglesa, deu
lugar à Rede Ferroviária do Nordeste,
enquanto em dezembro, praticamente ao apagar
das luzes do seu Governo, a Leopoldina Railway,
a terceira grande ferrovia inglesa do Brasil,
era encampada como Estrada de Ferro Leopoldina.
Das grandes ferrovias privadas brasileiras,
restavam agora apenas a Companhia Paulista de
Estradas de Ferro e a Companhia Mogiana.
Quando
Getúlio Vargas voltou para o seu segundo
Governo em 1951, a quase totalidade das ferrovias
brasileiras pertencia à União
ou aos estados, havendo ainda algumas arrendadas
aos estados, como a Rede Mineira de Viação
Férrea Rio Grande do Sul. De forma coerente
com a política, Vargas encaminhou ao
Congresso Nacional em 1952 um projeto para criação
de Rede Ferroviária Federal (RFFSA).
Após anos de debates no Congresso, a
RFFSA foi finalmente fundada em 30 de setembro
de 1957, dando início ao ciclo de administração
centralizada nas ferrovias do Brasil. |